Fui ao passado verificar como o Lourenço tinha conhecido Liliana. Com este chip maravilhoso, que o ser extraterrestre Jennir me tinha cedido para a prova da entrada no novo planeta Luzze. Este planeta tal como ele tinha referido, estava a ser preparado para quando a vida na terra estivesse numa fase impossível de se viver, mas segundo ele, os humanos teriam de ser escolhidos com capacidades já muito avançadas e preparados só para praticar o bem. Uma espécie de céu ou uma alternativa a ele. Cabia a jesus nosso senhor, depois de que a nossa morte chegasse, decidir se merecíamos a sua confiança para habitar este novo planeta. Mas a vontade de Jennir, o ser que veio do além era de começar a levar rapidamente humanos num futuro próximo e em vida, porque segundo ele, a terra sofreria no futuro, grandes mudanças que ele me prometeu mostrar transportando-me ao futuro.
Corri as imagens da minha vida para trás, como se de um filme se tratasse. Como se fizesse um replay, parei em várias datas, detendo-me numa delas que me chamou a atenção.
Há cerca de oito meses atrás, num cliente em que entregávamos uma encomenda, o Lourenço quis ficar no carro já que tinha uma forte dor de estômago. Desta vez era mesmo o Lourenço já que com este chip de Jennir tudo se conseguia decifrar. O seu irmão David tinha ficado em casa a descansar, já que estes gémeos se revezavam à vez para trabalhar na minha empresa sem que ninguém soubesse.
Lourenço fizera isto de propósito aproveitando que eu deixara o meu telemóvel no carro. Ele tinha alguma ideia e boa não era de certeza. Ele escondeu o meu telefone dentro do seu saco. Quando voltei nem me apercebi que não o tinha comigo. Mas que interesse teria ele no meu telefone?
Quando lhe telefonei do telefone lá de casa ele disse claramente que não sabia mas que possivelmente estaria lá caído no carro. Verifiquei no futuro ele a colocar o telefone debaixo do banco do condutor. Mas também vi na noite anterior ele a dizer ao irmão:
_ Este «gajo» tem uma mulher perdida de «boa». Olha aqui para esta mensagem David. Ela chama-se Liliana . Este Ricardo ama tanto a namorada. Está sempre a falar dela. Mas aqui também diz:
« Ricardo se algum dia me deixares de amar, a minha vida nunca mais será a mesma. Espero que se arranjares alguém me digas sem nunca me mentires. Amo-te muito e nunca poderei viver sem ti»
David disse ao irmão:
_ Vai uma apostinha que eu a «engato» primeiro que tu?
_ Achas? Tu comigo não tens hipóteses rapaz. Mas não me importo nada de dividir ela contigo, porque a «gaja» é divinal. Mas para isso, tenho que dar a volta ao Ricardo. Ele bebe bastante. De vez em quando apanha cá com cada «camada». Da próxima vez que sair com ele, vou fingir que bebo muito e vou dar cabo da sua vida. Com ele preso, será muito mais fácil dar a «volta» à namorada.
Para mim estava tudo esclarecido. Nem precisava ir mais ao passado visionar mais nada. Isso fazia-me sofrer e eu já tinha sofrido o bastante ,por um amor perdido. Ainda vi no passado a noite em que Lourenço me denunciou à polícia quando ia a conduzir e fui apanhado. Fiquei em casa detido seis meses por culpa dos dois gémeos e principalmente do Lourenço. Um amigo falso e uma namorada traidora, com o meu companheiro de trabalho, era tudo o que tinha conseguido na minha vida. Lógico que depois os gémeos entre eles disputaram a minha namorada que caiu na armadilha. O Lourenço de facto era um incansável mulherengo, mas nunca imaginei que me fosse tirar a rapariga que eu mais amava no mundo. O nosso amor era verdadeiro. Se os irmãos não se metessem na minha vida, ainda hoje eu seria um homem feliz. Liliana dava-me a força necessária para vencer tudo e todos. Mas lá está… «nem sempre o que parece é».
Neste momento, sentia mais ódio que amor por ela. Sentia ódio por Lourenço e pelo seu irmão corrupto, que se tinha juntado a ele, para desfrutar do corpo da minha namorada. Ela andava enganada, mas também não seria eu a desmascarar a situação. Iria pagar com a mesma moeda. Nunca na minha vida, me tinha sentido tão, bem a praticar a justiça. Por isso Jennir tinha compreendido a situação. Foi embora para não ser cúmplice do momento. Momento que começaria agora mesmo.
O Lourenço estava a chegar ao buraco, onde estva a mala com o dinheiro escondida. Com a minha invisibilidade, conseguida através do chip colocado no interior do meu pulso, coloquei-me junto do Lourenço que estava precisamente a esticar o braço para recolher a mala. Abri a mala diante dos seus olhos que ficaram «esbugalhados» a ver os maços de notas a sairem sozinhos. Retirei quatro maços de notas e disse ao Lourenço:
_ Companheiro… tens que deixar aqui algum que vai servir muito bem certas causas.
Lourenço deu um salto para trás. Agarrou a mala com força e olhou em todas as direcções para ver se via de onde vinha aquela conhecida voz. Foi então que eu lhe dei uma valente «chapada» dada com gosto e precisão.
_ Isto é para que aprendas a respeitar melhor os amigos.
O Lourenço caiu no chão perdendo agarrado á mala dando um grito de dor.
Dei a segunda «chapada» com toda a força que pude, na outra face da cara dele.
_ Esta é para aprenderes a não enganares as mulheres e para aprenderes a respeitar quem se ama de verdade.
Lourenço não quis levar mais. Começou a correr mesmo sem a mala, na direcção oposta onde tinha deixado o carro. Avançou a correr pelo cemitério, esbarrando muitas vezes nas campas. Gritei-lhe:
_ Por acaso não vais deixar aqui este dinheiro todo não? È que se não o entregas no local, «os gajos» matam-te.
O Lourenço parou. Gritou:
_ Mas não me faças mal. Tu tens a voz do Ricardo. Como sei que ele está vivo, deves de ser algum antepassado seu. Não me batas mais por favor_implorou Lourenço.
_ Não te vou bater mais. Pega na mala e vai ao teu destino. Devia meter-te aqui numa cova e deixar-te apodrecer, mas como não sou como tu, podes ir tranquilo. Vais pagar na mesma. Tu e o teu irmão David que é igualzinho a ti.
Eu peguei no meu telefone e liguei para a polícia judiciária. Contei o caso , quando eles me disseram que já andavam a seguir este grupo de lavagem de dinheiro há muito tempo,quem ficou surpreendido fui eu. Mais uma vez fui ver a estrada onde estava o carro de Lourenço. Ele estava a chegar ao carro. Duas pessoas saltaram na sua direcção. Percebi serem os agentes da polícia judiciária. Lourenço foi apanhado. Mais tarde, este iria levar os agentes a todos os seus cúmplices incluindo o seu irmão David.
Foi então que fiz a primeira boa acção que me tinha proposto desde que combinei com Jennir conseguir provar que merecia ir para o novo planeta Luzze.
Passei pelo muro do cemitério em direcção ao parque de estacionamento que havia no exterior. Cruzei a estrada e passei pelo portão de ferro das instalações onde moravam as crianças inadaptadas. Sempre invisível, subi ao escritório da Cercidiana e na secretaria escrevi mesmo à mão uma nota que coloquei dentro do cofre mesmo sem o abrir. Verifiquei com visão raios-X que havia pouco dinheiro no interior do cofre. Não me surpreendia, já que o governo deixou de olhar para estas causas. Coloquei dois maços de notas que tinha tirado da mala com dinheiro que Lourenço fora buscar. Meti os maços de notas e o bilhete que escrevera dentro do cofre. O bilhete por mim escrito foi colocado para o caso de na instituição eventualmente poder haver algum corrupto. Dizia:
“Este dinheiro foi oferecido para causas nobres, nomeadamente para as causas desta instituição. Serão efectuadas auditorias à sua aplicação pelo ministro das finanças Vítor Gaspar.
Saí e tele transportei à instituição «Chão dos Meninos» num bairro da cidade de Évora e fiz exactamente a mesma coisa. Queria que o ser que veio do Além ficasse contente com a minha prestação. Fui para casa mais feliz. De facto não existe sensação mais boa do que esta, de saber que as pessoas com menos recursos, são sempre apoiadas pela esperança e pela bondade dos que com poucos gestos podem fazer felizes estes seres inocentes. A alegria de fazer bem a alguém é inexplicável e poder fazer este bem, pela «calada» da noite sem intervenção ou burocracias de alguém era o máximo.
Autor: Manuel Maia
