A Rapariga Do Supermercado -Parte Final
Daniel não conseguia dormir nessa noite. O beijo doce de Melissa ultrapassou o limite da sua imaginação. Era difícil imaginar o quanto seria feliz ao lado de uma rapariga que era na verdade de outro. Mas a realidade era mesmo essa. Ela fez-lhe entender que existem pessoas sinceras e honestas consigo próprias. Afinal estava a receber uma lição duma rapariga, que não via os rapazes como novas experiências. Contrariava em muito a nova geração, que muda de relações com tanta facilidade. Contava as horas e os minutos e o seu pensamento era só um… a rapariga do supermercado.
No dia seguinte recebeu logo a chamada do seu amigo Fernando:
_ Ainda estás a dormir? Toca a levantar que tenho novidades para ti.
_ É pá não consegui dormir nada esta noite. Contei mil carneirinhos.
Entretanto outra chamada caiu no seu telemóvel.
_ Estou Daniel? Fala a Lara.
_ Olá Lara. O que foi?
_ Sabes a última?
_ Não! Ainda não contaste. Espera que tenho uma chamada em espera do Fernando. Allô Fernando… aguenta aí os cavalos, que a Lara quer contar uma coisa. Diz Lara…o que aconteceu?
_ A Melissa despediu-se ontem mesmo do supermercado. Já não vai trabalhar mais lá.
_Mas porquê? Por minha causa?
_ Sim e do teu amigo Fernando: Vou perder a minha melhor amiga.
_ Fogo…que «cena»…como poderei falar com ela?
_ Ela disse-me que ainda hoje se vão ver.Disse para esperares que te chamem.Pediu para te dizer isto.
_ Tudo bem. Vou esperar então.
_ Então adeus… já dei o recado.
Quando desligou, Daniel voltou ao Fernando:
_ Olha Fernando. Isto que nós fizemos já está a dar frutos podres. A miúda despediu-se do supermercado.
_ Quem a «gorducha»?
_ Não. Foi a Melissa… a «magra» Contou-me agora a Lara. Não gosto de chamar gorda à rapariga.
_ Pois eu acho que tenho uma melhor notícia para ti. O meu patrão telefonou agora e disse para me apresentar agora às 10.00 nos escritórios da Opel e pediu que tu me acompanhasse.Disse que alguém te viu a conduzir o Opel Ampera com tanta eficácia, que quer falar contigo também.Disse para te levar comigo agora. Toca a levantar e veste um fato, por favor. Não me venhas armado em «pelintra». Passo daqui a meia hora para te ir buscar .Toca a despachar. Não faças a barba porque agora se usa assim de um dia. Tens uma cara de muito miúdo.
_ Ok…Lá vou eu. Vou ter de faltar hoje ao trabalho, mas se é por uma boa causa.
_ Pode ser a tua oportunidade de andares a passear todo o dia em carrinhos lindos. Vamos despacha-te.
Entrei no chuveiro a correr. Vesti um fato de casamento do meu pai e enfiei à pressa uns sapatos clássicos, um pouco gastos pelo tempo de nunca os calçar.
Quando chegávamos à Opel no irmão gémeo do Opel Ampera… o Chevrolet Volt, já o «boss» do Fernando estava à nossa espera, sentado no seu escritório.
Quando nos viu entrar pela porta exclamou logo:
_ Temos que ter uma conversinha os três_disse ele olhando para nós com um olhar ameaçador.
_ Patrão vai contratar o Daniel não é?Eu dei o currículo dele. Oiça é um vendedor «brutal»
_ Não Fernando. O que vou mesmo fazer, é despedir-te a ti.
_ A mim? Então porquê patrãozinho Carlos?
_ Parece que os meninos andaram a tentar duas jovens raparigas para se meterem no Ampera e andarem a passear com um convite falso. Este aqui. Mostrou o convite modificado por Fernando.
_ Então que mal tem isso? Levámos as raparigas a fazerem uma avaliação do carro. Só porque não tinham os 47 mil euros para comprar?
_ Não..não foi isso.Para já o teu amigo Daniel não tinha nada que conduzir o carro da Opel.És tu o vendedor e não ele. Depois arranjaram esse esquema para se aproximarem duma rapariga que por sinal é a namorada do meu filho…Entra Melissa.
Os olhos dos dois amigos ficaram esbugalhados ao verem entrar Melissa. Esta aproximou-se e disse:
_ Olá aos dois.Eu não disse que tinha uma pequena surpresa para vocês?
_ Então não dizem nada? Ficaram mudos?_perguntou o sr. Carlos patrão de Fernando.Quero um pedido de desculpas às duas raparigas e ao meu filho também.
Nesse momento a surpresa ainda foi maior. Entraram na sala, Lara e um rapaz que supostamente era o filho do Sr. Carlos.
_ Este é o meu filho que tu conheces bem Fernando, pois é ele que muitas vezes te dá ordens.
_ Olá Gabriel. Tudo bem?_disse Fernando mais branco que o melhor branco.
_ Olá... nada Fernando. Aqui a minha namorada, disse que vocês são os maiores idiotas que alguma vez se viu. Aí o teu amiguinho tentou meter-se com ela. Mas eu já acabei com isso. Ela agora vem trabalhar para aqui, para junto de nós e desse modo, idiotas como vocês…
_ Eh…espera lá aí..chega de chamar nomes.Vou ser despedido não é?_ perguntou o Fernando já todo alterado. Então vamos lá fora, para me chamares idiota outra vez.
_ Calma Fernando_disse eu tentando acalmar a situação. Bem na verdade aqui o culpado fui eu. O Fernando como meu amigo só me tentou ajudar. Já pedi desculpas à sua namorada.
_ Qual delas?_ perguntou o Fernando a provocar. A mais cheia ou a mais magra? Como nunca me tinhas dito que tinhas uma namorada.
_ É a Melissa. Não tenho de andar a mostrar a minha namorada aos colegas de trabalho.
_ Olha mais vale então mudares de atitude_disse outra vez Fernando. Porque na volta qualquer dia acontece o mesmo. Se me tivesses dito nunca isto teria acontecido.
Nesse momento Melissa mostrou mais uma vez que era uma rapariga única empregando uma voz doce e calma.
_ Gabriel e Sr. Carlos eu gostaria de pedir aos dois que perdoem estes rapazes. Ali o Daniel já falei com ele e entendeu pedindo desculpa pelos dois e aqui o Fernando pelo que o Gabriel diz, é simplesmente o melhor vendedor da Opel, portanto talvez pudessem dar por favor mais uma oportunidade ao rapaz.
O Sr. Carlos parou para pensar. Afinal a namorada do seu filho tinha razão.Para quê despedir um vendedor que vendia cerca de dez a vinte viaturas por mês? Com os tempos de crise isto era uma bênção para o concessionário.
_ Que dizes Gabriel? Estás de acordo com a tua namorada?
_ Por mim tudo bem desde que não se metam mais com a Melissa.
_ Bem... então está bem. Podes continuar entre nós Fernando. Mas vais trabalhar com os carros usados durante alguns meses. Para ti acabou-se o levar para casa, as viaturas novas. Aí o teu amigo Daniel pode ir para o lugar da Melissa lá no lugar que ela deixou livre no supermercado e fica ali colega da Lara se quiser. Aqui não mete os pés. Vá fora os dois daqui. Ponham-se na rua. O Fernando hoje não trabalha que é para ficar mais calmo. Se eu sei que te «empinas» com o meu rapaz, vais dos carros em segunda mão, directamente trabalhar na sucata.
Os dois amigos saíram em silêncio da sala. Nada fazia prever que as coisas acabassem deste modo.
_ Queres ir beber alguma coisa?_perguntou Daniel
_Não amigo. Vou para casa acalmar-me um pouco. É que estou quase a voltar para trás e partir os dentes aquele que nos chamou idiotas.
_ Deixa lá. A violência não te vai levar a nada. Ficaste com o emprego. Já não é mau. Podes agradecer à rapariga.
_ Agora a vender carros todos podres é que me safo.
_ Queres meia batata para te acalmar?
_ Uma batata levavam aqueles dois no nariz. Nunca pensei que aquele «merdoso» pudesse ter uma namorada daquelas. O «gajo» não vale nada. Sempre foi o menino do papi. Lá está!...as «gajas» boas querem é encostar-se aos que têm papel.
_ Eu sobre isso de mulheres, cada vez entendo menos. Sempre ouvi dizer que não valia a pena tentar compreender o que lhe vai na cabeça.
_ Esse Gabriel eu sei o que lhe ia bem à cabeça sei… um lindo par de cornos, para marrar no pai dele.
_ Não sejas assim Fernando. Então a moça até pediu para tu ficares.
_ Obrigado...no fundo sou eu que pago os ordenados aquela gente toda. Farto-me de vender carros. Só este mês já vou com doze.
_ Tu deves ganhar mesmo muito dinheiro. Estou a pensar numa «cena»...e se nós arranjássemos um stand para nós? Assim trabalhávamos os dois juntos.
_ Por acaso nunca tinha pensado nisso. Olha que é uma ideia a considerar. Pagas um prato cheio de batatas fritas, com dois hambúrgueres e dois ovos estrelados e um bife da vazia,para pensarmos melhor no assunto?
_ Mas Fernando... e a tua dieta de choque? Com essa comida toda vais ter uma dor de estômago brutal.
_ Meia batata… se os meus pais soubessem chamavam-me maluco. Agora quando sairmos com elas outra vez sozinhas vão ver a meia batata.
_ Não me fales nelas…sabes que a Melissa me beijou?
_ Não posso!…sério?Não acredito.
_ Sim… até eu fiquei a bater mal da tola. Quando eu menos esperava deu-me um beijo na boca.
_ «Fonix». Por essa é que eu não esperava. Elas dizem que não…que não…mas quando damos por elas, já nos estão a saltar para cima.
_ Já vi que não vale a pena tentar mudar a tua forma de pensar das mulheres. Diz Lá aí ao Manuel Maia para acabar a história por aqui.
_ Acaba assim sem Mais nem menos? Ao menos pedíamos ao «gajo» que inventou esta história para ser ele a pagar o almoço…e ele que coma a meia batata enquanto pensa na próxima . É pá antes de acabar, diz lá ao artista que meta aqui a Melissa a dar-me um beijo também. Então só tu é que tens direito?
_ Dá na Lara que anda carente… na «gordalucha» _ disse Daniel enquanto se dirigiam os dois a saltar para o fim da história...e saltaram.
Manuel Maia
