Cheguei ao
parque do cemitério do Espinheiro, quinze minutos depois da minha hora de
saída. Sem ninguém à vista, fui até ao sítio onde me pareceu estar a dita pedra,
com um buraco por detrás, onde supostamente estaria a dita mala com o dinheiro.
Que
adrenalina que sentia. Quem não imaginou já poder achar um tesouro ou uma mala
com dinheiro? Isto sim que dava «pica». Quase parecia um assalto.
Realmente
junto ao muro do cemitério, estava encostada uma grande pedra, que com esforço
desloquei para o lado, deixando ver um buraco no muro, por desde onde se podia
ver o interior do cemitério. Estava ainda escuro, por causa da mudança de hora
para verão. Acendi uma lanterna que levava, para o dito buraco para ver a
respectiva mala, mas desta não havia sequer um sinal. O meu coração bateu mais
forte. Mas que «raio»… a mala havia desaparecido. A pedra que retirei, apenas
estava cheia de caracoletas, que o «rei dos caracóis» deveria aproveitar para
os seus petiscos e no buraco aberto para o interior do cemitério, simplesmente
havia o buraco.
Peguei no
telefone e liguei ao Lourenço meio nervoso:
“ Ouve
Lourenço parece que a mala desapareceu. Aqui só há um buraco no muro”.
“O quê?!
Então mas não pode ser. Eu coloquei a mala aí tenho a certeza. Não estarás
enganado no sítio?”
“Não vejo
aqui mais nenhum buraco no muro e pedra encostada só tenho esta aqui junto de
mim”.
“ Mete-te no
teu carro e espera aí por mim. A minha mãe agora está a ser cuidada pelas enfermeiras
e não convém ficar aqui mais tempo. Vai ficar internada alguns dias”.
Meti-me no
carro á espera de Lourenço. Onde é que eu já tinha visto esta «cena»?
Claro…pareceu-me familiar. Foi o meu encontro com Liliana precisamente no mesmo
local, onde as coisas acabaram definitivamente. Pensar naquela noite, deixava
uma angústia em mim e um sofrimento inexplicável. Eu ainda a amava. O meu amor
por ela ainda era muito forte, mesmo passado cerca de dois meses da nossa
separação. Muitas vezes, estive tentado a mandar-lhe mensagens ou ligar, mas o
meu orgulho travava o meu instinto. Queria dizer-lhe tantas coisas, mas ela
tinha escolhido dar outro rumo à sua vida. A escolha fora dela e tinha de
respeitar a sua decisão.
Quando
Lourenço chegou junto de mim, a sua cara estava pálida e a sua voz muito
exaltada:
_ Não pode
ser. Então só passaram duas horas desde que passámos aqui e a mala desapareceu?
_ disse ele olhando para o buraco com a lanterna, apesar de já ser quase de dia.
_ Podia
alguém estar a ver quando tu escondeste a mala. Acho estranho também, mas
talvez a pessoa que a vinha recolher, já estivesse a «topar» os teus
movimentos.
De repente o
Lourenço teve uma reacção que eu não estava nada à espera quando disse:
_ Sabes
Ricardo… nem nos melhores amigos se pode confiar. Tenho a certeza que não foi
um morto que roubou a mala.
Lourenço
meteu-se no carro e arrancou com uma fúria que Ricardo desconhecia, deixando o
amigo de boca aberta.
_ Olha?!…só
me faltava mais esta. Agora zangou-se comigo. Pensa que fui eu que roubei a
mala_ disse eu entre dentes.
Ricardo
ficou ali uns instantes parado sem reagir. O amigo ficou a pensar que tinha
sido ele o autor do roubo. Este lugar estava mesmo amaldiçoado. Perdera ali a
namorada e agora perdera ali também o amigo.
Nas noites
seguintes a recolha do lixo tornou-se insuportável. Lourenço deixou de me falar
completamente. Por mais que eu insistisse em dizer que não tinha sido eu a
tirar a mala, ele não acreditava. Mas o mais grave veio a seguir. Lourenço
deixou de comparecer ao trabalho deixando-me a mim sozinho metido no «lixo» da
vida.
Numa noite
de finais de Março, depois de receber o primeiro vencimento da Câmara Municipal
de Évora, voltei de novo a beber. Dei por mim num bar que nem me lembro o nome
(queriam publicidade à borla não?) e tomei algumas cervejas, esquecendo-me
completamente do problema de conduzir, visto que se fosse apanhado outra vez,
ficaria definitivamente sem a carta de condução apesar de nesse momento não
acusar os 2,3 de álcool no sangue que o tinha levado a ser detido em sua casa
com a pulseira electrónica.
Andei às
voltas de carro, sem me aperceber do lugar onde este me levava. Quando dei por,
mim estava a estacionar no parque do cemitério, o maldito lugar que só me
trazia más recordações. Chorei mais uma vez, agarrado ao volante do carro.
Estava desesperado. A minha vida tinha-se tornado num verdadeiro martírio.
Antigamente Liliana conseguia pressentir (não me perguntem como) o meu
sofrimento. Cada vez que eu estava muito triste, ela mandava sempre uma
mensagem a perguntar como eu estava. Olhei para o telemóvel. Tinha algumas
mensagens guardadas de Liliana para não me esquecer das suas palavras bonitas
de amor que sentia por mim. Belos tempos de amor e paixão. Então nesse momento,
algo aconteceu que eu não estava nada à espera. Uma mensagem sua apareceu como
por milagre, no visor do telefone que dizia:
“ Já nem
amigos conseguimos ser… não Ricardo?”
O meu corpo
tremeu de emoção. Afinal ela ainda conseguia prever os meus sentimentos. A sua
mensagem caiu como um raio fulminante fazendo o meu coração acelerar de tão
nervoso que fiquei. Nem sabia se lhe havia de responder. Fiquei confuso…a minha
língua foi mordida por mim, um descuido meu fazendo o sangue escorrer nos meus
lábios sem qualquer dor. Foi aí que me decidi a responder:
“ Sim. Quero
ser teu amigo Liliana. Se não existe outra alternativa e se o destino não quis
que ficássemos juntos, penso que é a única solução que existe para
acompanharmos a vida um do outro. Não me faças chorar hoje Liliana. Já sofri
muito”.
“ Eu sei que
te causei muito sofrimento… que fui uma egoísta. Devia ter falado primeiro
contigo sobre o assunto e reconheço, que agi mal ao não ir visitar-te quando
estiveste detido em casa. Desculpa Ricardo. Não chores por favor”.
“ Mas que
sentes por mim Liliana passado este tempo?”
“ Ricardo…
já não sei se o que sinto por ti é amor. Sei que amo muito o meu novo namorado
e é com ele que quero passar o resto dos meus dias. Vou ter um filho seu e estou
muito feliz. De ti… guardo boas recordações. Gostaria de ter-te como amigo e
queria que desse modo, tu fizesses parte da minha vida. És uma parte muito
importante de mim e nunca irei esquecer os momentos que passámos juntos. Pode
ser que eu também pague aquilo que te fiz sofrer. Talvez morra nova por castigo,
mas sabes… sempre pensei primeiro nos outros para não os fazer sofrer, mas
desta vez, vou pensar na minha felicidade. Desculpa, porque sei que te estou a
magoar imenso, mas não queria deixar alguns pontos, sem estarem totalmente
esclarecidos. Tu és uma pessoa única e por isso não te quero perder. Talvez já
não te ame como antes, mas continuas a ser uma pessoa muito importante para
mim.
Era
impossível não chorar num momento como aquele, no sítio onde me encontrava e
com as cervejas que tinha bebido. Chorei e muito. Não consegui enviar-lhe uma
resposta e ela não insistiu em mandar mais. O essencial estava dito e qualquer
coisa que disséssemos a mais, ainda iria causar maior sofrimento. Esta seria a
conversa que ela deveria ter tido antes de me ter traído. Nesse momento, fiz a
coisa mais importante que um ser pode fazer quando perde alguém. Desliguei o
meu espírito do dela. Foi como se um clique se desse no meu cérebro. A partir
desse momento, eu tal como ela, deixaríamos de sentir o que o outro estava a
passar, principalmente no que toca ao sofrimento. Muitas vezes eu conseguia
pressentir também, quando ela estava triste ou sofria, quando estava doente ou
feliz. Ao desligar o meu espirito do dela, eu sabia que esse amor nunca mais
voltaria a ser o mesmo. Percebi que esse amor ficou sem aquele sabor de
plenitude, de parceria, de cumplicidade e de completa satisfação. Mas o tempo,
esse nunca mais voltaria a ser o de outrora. Uma realidade… que me enlouquecia.
Sequei as
minhas lágrimas e esperei tal como vocês que estão a ler, pela próxima parte da
história que este Manuel Maia nos quiser trazer.
Autor:
Manuel Maia

