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Histórias de pessoas para pessoas
quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Ser que Veio do Além - Parte 2

quarta-feira, maio 15, 2013




Fiquei uma semana em casa sem conseguir sair à rua. Só quem passa por uma traição, é que sabe dar o valor ao que se sente. É como se alguma parte nós se tivesse separado do nosso corpo. Não se dorme, não se come, não temos paciência para falar com ninguém. O meu sistema imunitário baixou tanto, que a doença se instalou em dias. Os rins acusaram os nervos que sentia, a angústia entranhada no meu peito foi fatal, para desenvolver a minha vida, que por sinal já não estava nada famosa. Deprimido, senti o olhar dos meus pais em mim, indagando mentalmente o que me tinha deitado tanto a baixo:
_ Que se passa contigo Ricardo? Que tens meu filho?_ perguntou a minha mãe aflita com o meu estado.
_ Nada mãe. Isto passa. Só preciso de algum tempo.
_ Mas tu nem comes como deve ser. Felizmente que deixaste a bebida. É ela não é? A tua namorada?
_ Sim. Nós deixámos-nos. Ela arranjou outro namorado. Vai ter um filho dele.
_ Mas Ricardo… ela parecia gostar tanto de ti.
_ Parecia sim mãe. Mas sabe…as pessoas mudam. Só não deviam era fazer tantas promessas quando estão apaixonadas. Se depois não as cumprem. Para quê enganar-se a si próprias?
_ Mas filho tens de te animar. Existem tantas moças por aí e tu és um rapaz tão bonito. Não podes deixar de fazer a tua vida, por causa de uma rapariga que resolveu abandonar-te. Para dizer a verdade eu até fico contente. Não é para te magoar filho, mas onde é que se viu uma namorada nem aparecer, quando tu estiveste aqui em casa com a pulseira electrónica? Se ela não te apoiou quando tu mais precisavas, achas que é a mulher ideal para toda a tua vida?
_ Tem razão mãe. Tenho que a esquecer. Vai custar… mas vou conseguir.
Mais uma vez as lágrimas saíram, sem que eu quisesse ou fizesse por tal. Estava demasiado fragilizado e precisava urgentemente de encontrar alguém para me ajudar a esquecer Liliana.
Nessa noite recebi o telefonema do meu ex-companheiro de trabalho, que fazia comigo a distribuição de encomendas numa empresa em Évora, que obviamente não vou dizer o nome. Estou farto de fazer publicidade às empresas que se aproveitam das minhas histórias e nem um obrigado me dizem. Vou eu pôr um nome inventado: ( peço desculpa ao autor por esta interrupção)
O Lourenço, antigo companheiro da empresa Expresso Tour (espero não Haver nenhuma com este nome) telefonou-me essa noite:
_ Ricardo amanhã vou ao desemprego. Vai lá ver ao teu correio se também lá tens uma carta para ti a chamar-te.
_ Espera que vou ver então.
Dois minutos depois:
_ Sim olha também me chamam para amanhã às dez horas.
_ Precisamente à mesma hora que eu. Encontramo-nos á porta? Tomamos um cafezinho juntos.
_ Ok Lourenço. Lá estarei às nove e meia.
Cheguei à porta do serviço de desemprego mais cedo que Lourenço. Uma fila enorme de pessoas esperava a sua vez para entrar para as entrevistas. Meti-me na fila, à espera que Lourenço chegasse para não perder a vez. Quando ele chegou, todas as pessoas que estavam na fila ficaram a olhar para ele, porque disse em alta voz:
_ Alguém desta fila vai querer café?_ gritou ele para cerca de trinta pessoas que se encontravam na entrada do desemprego de Évora.
Claro que ninguém disse nada.
_ Então se não querem, fiquem aqui a guardar o lugar que aqui eu e o meu amigo já voltamos.
_Lourenço vamos perder a nossa vez.
_ Não vamos nada. Aqui o pessoal está todo no mesmo barco. Antigamente convivíamos nos cafés. Agora a moda é à porta do desemprego. Portanto aqui somos todos amigos.
Lourenço puxou -me pelo braço quase me arrastando dali.
Já no café perguntou?
_ Como estás amigo? Não tens dito nada. Passa-se alguma coisa?
_ Sim. Aconteceu o que eu nunca esperei. A Liliana arranjou outro namorado. Vai ter um filho dele.
_ É pá!...temos de comemorar isso. Bem-vindo ao mundo dos «cornos». Eu não te disse? Pensavas que tinhas ali o amor para toda a tua vida e toma que já almoçaste. Ela «meteu-tos».
_ O problema disto tudo é que até fiquei doente. Uma semana de depressão sem falar com ninguém. Os meus rins acusaram os nervos e o veneno dos cigarrinhos que fumei ajudaram ao resto. Eram seguidos.
_ Sim eu compreendo amigo. Estava a brincar para te animar. Uma vez encontrei o teu pai e ele contou-me que tu andavas muito mal. Além disso, eu sei que tu gostas muito dela. Deve ter sido um choque para ti tremendo.
_ Sim não estava nada à espera que ela me fizesse isto. Mas pronto…agora também não adianta chorar mais. A vida é assim. Não tem sido nada fácil para mim. A sorte disto tudo é que ainda só tenho 28 anos. Ainda tenho muita vida pela frente.
_ É assim amigo. Nada de desanimar. Vais ver que agora arranjamos um emprego em que ganhamos muito dinheiro e tu ainda vais arranjar uma rapariga que te dê o devido valor. A Liliana queria era um «gajo» que tivesse posição e dinheiro na carteira. Se ela gostasse de ti, tinha ido ver-te quando estiveste em casa detido. Eu bem te dizia que andavas enganado. Mas tu não vias a realidade. Na volta, já ela andava com o outro há muito tempo sem que tu soubesses.
_ Já não digo nada. Mas irrita as promessas que ela me fez. Que eu seria o único amor da sua vida e que me amaria para sempre.
_ Oh colega…o que se diz hoje, já amanhã está esquecido. Companheiro, acredita… aqui no amigo. Posso ser um bocado machista mas o que elas gostam é…bom não vou dizer, porque o café está cheio de gente.
Quando voltaram para a fila do fundo de desemprego, já esta tinha andado alguns metros. Agradeceram á senhora que lhes guardou o lugar e começaram a ouvir as habituais conversas de quem está desempregado.
_ Hoje estive a pensar numa ideia, que talvez consiga convencer o técnico a dar-me o dinheiro todo para eu montar um negócio por minha conta_ disse o Lourenço
_Sim? Deve ser boa. Vindo da tua cabeça.
_ Já vais ver. Espero que nos chamem aos dois juntos, para poderes ouvir eu a falar com o tipo.
_ Pois seria bom ouvir a tua ideia. Pode ser que façamos sociedade.
_ Se não aceitarem vais ver o que tenho preparado para eles. Vou trazer para aqui a minha mesa de picnic portátil e vou «Abancar» aqui à porta e meto toda esta gente a fazer o mesmo que eu. Vai ser uma festa. Temos é que esperar pelo verão porque agora em Fevereiro com este frio não dá.
Quem estava a ouvir a conversa na fila ria-se com o Lourenço a bom rir. Eu puxei por ele, porque o Lourenço quando começa a brincar, a malta entrava toda nas brincadeiras dele. Palhaço é que ele devia ter sido.
_ Oh Lourenço estes amigos aqui desempregados como nós, também estão curiosos que ideia vais tu apresentar ao técnico do desemprego. Não vais deixar esta malta que está a ouvir toda curiosa. Ou é segredo?
_ Não é nada segredo. Desde há muito tempo que inventei uma máquina para salvar o casamento dos casais. Sabem como é difícil o pessoal dormir com a mulher e passar os dias da amargura a tentar travar os gazes que se formam durante a noite. É verdade companheiros. Não se estejam a rir. Nos primeiros tempos a coisa até se leva. Acumulas os gazes e se não aguentas, vais ter de ir dez vezes à casa de banho para expelir aquilo. Para disfarçar os que produzem aquele barulho que todos conhecem, abres o autoclismo para abafar o som. Mas com o passar dos anos, as coisas começam a ficar diferentes, começas a ouvir desculpas tais como:
_ Ah foi? Ouviste. Estava a dormir… depois saem aqueles risinhos inocentes e o outro diz logo mesmo que seja mentira:
_Mas também dás que eu bem os ouço. Ou pensas que tens o cú santo? É cá com cada um…
Eu rindo a bom rir disse:
_ Oh Lourenço tudo isso está muito bem…mas onde entra a tua máquina?
_ Pois eu inventei uma máquina que colocas no dito cujo e além de absorver os cheiros que não são nada agradáveis, mandas os gazes lá para dentro e ainda podem ser aproveitados para combustível biodiesel.  Mas o mais importante, é que vai baixar o número de divórcios no nosso país.
Um rapaz que estava na fila disse:
_ Olha por acaso eu divorciei-me por causa desse problema. Mandei-a comer sabonetes porque o cheiro dela era insuportável. Mas estava sempre a dormir quando acontecia. Parecia uma «metralhadora»!?
Uma mulher que aparentava cinquenta anos disse:
_ Com a fome que se está a passar em Portugal e as dificuldades de pagar as coisas e estes «gajos» vêm para aqui falar de «peidos».
Entretanto chegou a nossa vez de sermos atendidos. A senhora do balcão do desemprego, que por acaso até conheço na realidade (fora da história) disse para subirmos os dois para falar com o técnico. Acreditem se quiserem, mas o técnico já sabia da famosa máquina do Lourenço:
_ Então você é o Lourenço? O autor da invenção da máquina que absorve « peidos»?
_Sim senhor. Como sabe?
_Oh então com a publicidade que o senhor fez lá fora na entrada, toda a gente ficou curiosa como funciona. Toda a gente menos eu.
_ Oh!... não me diga que o senhor não os dá?
_ Sim dou como toda a gente. Mas lá em casa já estamos habituados. Até temos dias para despique a ver quem dá mais. Normalmente ganho sempre. É da comida mediterrânea. Só na cozinha é que é proibido largar os gazes. Fora daí pode ser em todo o lado.
_Muito moderno sim senhor. Mentalizados para o cheiro. Assim é que deviam ser todos os seres. De um lado etiqueta à «Brava» e do outro lado puros suínos.
_ O Lourenço quer arranjar emprego não é verdade, juntamente aqui com o senhor Ricardo?
_ Sim. Quanto mais depressa melhor_ respondi eu já irritado com aquela conversa de «merda».(peço desculpa).

_ Então esqueçam os dois a máquina de recolha de «peidos». É que se a mostarda me chega ao nariz, vão ter de ir para o fim das oportunidades, que é para aprenderem a ter juízo.
_ Mas com esta conversa toda, não era de certeza a mostarda que lhe ia chegar ao nariz_ respondeu Lourenço.
_ Bem vocês os dois trabalharam numa transportadora…pelo que aqui vejo por enquanto não existe nada que encaixe com a vossa profissão. Terão obviamente que escolher a que houver disponível.
_ Por mim tudo bem. Preciso é de arranjar outra vez trabalho._ respondi eu.
_ Muito bem_ respondeu o técnico. Vamos lá a ver…tenho aqui agricultura biológica para Moçambique e tenho limpeza de praias daqui por dois meses com casa , na costa alentejana e algarvia. Também tenho para os dois, um trabalho a dar férias na Câmara de Évora para recolha de lixo. Levem estas propostas estudem e depois voltem cá, para me dar alguma resposta.
Saímos do gabinete sem dizer uma palavra. Já na rua eu disse ao Lourenço:
_ Só de ouvir isto, já estou pior outra vez dos meus rins.
_«Fonix» que «gajo» mais estúpido. O que nos foi arranjar. Eu nem vou lá aparecer. Fico a receber do desemprego até que me queiram pagar. Agora tinha que ir para moçambique plantar batatas, ou ter de limpar praias para os outros sujarem. Mas é que nem pensar.
_ Então só nos resta o lixo_ disse eu cheio de dores.
_ Isso está pior não? Não vais ao médico porquê? Agora tens muito tempo. Ou ainda tens aquela mania de ser «Virtua»?
_ Continuas a chamar-me isso Lourenço? Sabes que eu não gosto nada.
_ Então tu andavas sempre a dar receitas de chás para isto e para aquilo. Porque não te receitas a ti?
_ Porque é preciso fazer experiências primeiro com as plantas e o meu corpo não é nenhum laboratório.
_ Se fosse eu que estivesse mal dos rins o que me receitarias?
_ Ora que pergunta Lourenço. Mandava-te trabalhar os rins. Não tens namorada?
_ Achas? Então não te disse que íamos festejar? Então a última foi a que era militar. Não te lembras de eu te dizer que já não aguentava mais ela só me andar a falar nos colegas? Tanto «mel» dentro do quartel, que ela teve dificuldade em escolher. Só não mos «meteu» logo porque estava com muita dificuldade em escolher outro. Eram tantos.
_ Tu como reagiste ao choque?
_ Choque!? O único choque que tive foi contra a porta da minha casa…custava a passar porque a minha «cabeça» tinha aumentado consideravelmente. Apanhei uma bebedeira tão valente, que fui em coma para o hospital. Depois quando saí, já nem me lembrava de nada. Não sei que me deram… que resultou em pleno. Por isso é que tu devias ir também ao hospital. Podia ser que te esquecesses mais rápido. Os «gajos» têm um «soro» que te dão e esqueces tudo, o que te possa magoar.
_ Estás sempre a brincar amigo. Contigo nunca consigo estar sem me rir. Sempre a inventar…
_ É para não pensares mais em tristezas. Olha… vamos almoçar ao mac?…que é mais barato. Perguntou o Lourenço_ Sinceramente não sei como pode o autor escrever uma história sem fazer publicidade às «cenas».
_ Então mas tu percebeste e penso, que todos os leitores perceberam também. Menu de cinco «heróis» onde todas as crianças gostam de ir e os adultos também.
_ Pois agora estando ambos no desemprego, quanto menos gastarmos melhor. Vamos lá então.
Dirigiram-se pois no carro do Lourenço para o restaurante onde se pode recolher a comida dentro do carro, mas eles entraram dentro do dito restaurante.
_Esta comida faz «gazes». Disse o Lourenço ao entrar.
_ Podias ter trazido a tua famosa máquina. Não estás a pensar «gazear-te» ao pé de mim pois não?
_Nunca se sabe. Tudo vai depender se o hambúrguer tem muita cebola.

Autor:
Manuel Maia