Searching...

Senta -Te






Histórias de pessoas para pessoas
quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Ser Que Veio do Álem - Parte 3

quinta-feira, maio 16, 2013




Das três oportunidades que o serviço de desemprego arranjou tanto para mim como para o Lourenço, escolhemos a oportunidade de dar férias na Câmara de Évora:
_ Finalmente vão começar a olhar para as pessoas que trabalham no lixo de outra forma. Disse o Lourenço à saída do restaurante, onde fomos almoçar e decidir as propostas.
_ Sim porque ir para Moçambique numa altura destas não dava lá muito jeito. Pelo menos ficamos perto da nossa família_ disse eu.
_ Talvez possamos ir quando a tua cabeça deixar de pensar na tua «ex»… além de que neste emprego  me posso «Gasear» à vontade que ninguém se vai zangar comigo. Achas que que se der uns «gazes» neste emprego do lixo alguém se vai chatear?
_ Eu vou andar toda a noite de máscara. Imagino o cheiro que vai ser.
_ Companheiro…é o que há. Se não gostarmos «basamos». Depois nas folgas pomos perfumes low cost ( era aqui que entrava a publicidade, com ofertas para os leitores). Máscara não vou precisar porque ando todo o ano com uma nas «trombas».
No dia 02 de Março do ano 2013, Ricardo e o amigo Lourenço apresentaram-se na Câmara de Évora ao chefe de turno, para iniciar o trabalho de recolha de lixo.
_ Ainda bem que esta «cena» se recolhe de noite. Tenho vergonha que os nossos amigos nos vejam_ disse eu ajudando a despejar o primeiro contentor.
_ Ricardo hoje em dia qualquer profissão é boa. Com a crise que existe, ter um emprego e ter saúde é um luxo. Lógico que preferia ter uma profissão mais agradável que despejar lixo, mas tu vais ver que basta um tempo e estamos mais habituados que os empregados que estão aqui há anos.
_ Boa…vamos transformar esta cidade na catedral do lixo e «lixamos» tudo. Património da lixeira.
Entretanto a voz do motorista ouviu-se:
_ Olhem meus meninos. Mais contentores e menos conversa.
Lógico que o Lourenço não esteve com meias medidas e «gazeou» o motorista. Este riu-se. Via-se que estava acostumado a receber «presentes» daqueles.
Quando passámos pelo cemitério do Espinheiro fora da cidade, descemos para recolher um contentor que estava perto do parque de estacionamento no exterior. Olhei para o sítio onde tinha estado com Liliana e aquela noite trágica, voltou à minha memória. Tinha- se passado cerca de dois meses, mas é como se tivesse acabado de acontecer.
Lourenço reparou na minha cara e disse:
_ Caramba…parece que viste algum morto. Estás pálido amigo.
_ Foi aqui que falei com ela pela última vez. Foi quando ela me contou do outro namorado novo que arranjou.
_ Aqui?! Fogo!…Estavam bem acompanhados.
_ O que tem de mais? Não veio cá nenhum morto fora chatear. Além disso o parque é grande e pelo menos aqui estivemos em paz.
_ Ricardo eu não acho nada normal (enquanto metiam o contentor no sítio). Se eu viesse aqui numa noite de trovada «borrava-me» todo.
_ Deixa-me adivinhar… se não te «borrasses» todo pelo menos uns quantos gazes «deitavas»
_ Pois então isto é lá sítio para trazer uma namorada.Com estes espíritos todos por aqui a rondar, ainda me «papavam» a mulher.
_ Tens cá com cada uma Lourenço.
_ Comigo aqui tu não podes ficar triste. Olha?!..olha Ricardo! estás a ver o mesmo que eu!?
_ O quê?!. Respondi eu
_ Ali junto ao muro do cemitério. Não vês? Debaixo do contentor do lixo? Parece uma mala.
_ Vamos que o motorista já está a chamar.
_ Não vamos nada. Vai lá tu distrair o velho do camião do lixo, que eu vou ver o que é num instante.
_ Lourenço não vás…olha que pode ser perigoso. Pode ser alguma bomba.
_ Como uma bomba ficava eu, se agora não fosse lá ver o que era.
Ricardo foi distrair o colega motorista do camião do lixo, enquanto Lourenço foi a correr ver o que continha a mala. Ao fim de um bocado juntou-se ao amigo. A sua expressão era de lhe ter saído a lotaria.
_ Então o que continha a mala?
_ Não vais acreditar. Nem te passa pela cabeça o que lá está dentro.
_ Va «desembucha»…disse eu saltando para a parte de trás do camião.
_ Dinheiro… cheio de dinheiro. Nunca vi tanto «picão» junto.
_ Fogo! Não me digas…e o que lhe fizeste?
_ Escondi a mala atrás de uma pedra dentro de um buraco que há no muro do cemitério. Quando acabarmos o turno às seis, vimos ver melhor.
_ Estás louco? Aqui neste sítio só pode ser de tráfico de droga, ou outra coisa muito ruim. Eu não sei se venho.
_Então agora estás armado em maricas?
_ Pronto. Eu venho contigo ver o mistério da mala do cemitério. Olha se tem dinheiro ao menos que seja muito.
_ É assim mesmo amigo. Pode ser a nossa oportunidade de sermos ricos.
_ Ou de ir parar á cadeia, que me parece ser o mais certo.
Antes de acabarmos o turno, o Lourenço recebeu uma chamada de urgência. Ouvi ele falar ao telefone e quando desligou a chamada disse:
_ Fonix… A minha mãe foi internada com um problema grave de anemia. Está com soro. Tem quistos nos ovários e um mioma. Tu que és «virtua» que me dizes disto?
_ Problema de alimentação. As mulheres passam anos com falta de ferro no sangue e não querem saber de modificar o problema. Quando ela regressar a casa compra no «pinga»  «acuçar» ( por causa da publicidade) beterrabas cozidas e colocas nas sopas e nas saladas. Verás que nunca mais tem falta de ferro. Inclusive pode diminuir os quistos e o mioma.
_ Oh…«virtua» tu sabes muito de dessas «cenas» de produtos naturais. Tiraste algum curso?
_ Achas? Limito- me a ir á internet e vejo os benefícios das plantas e também os seus efeitos secundários, porque muitas plantas podem ser tóxicas. Não sou nenhum virtuoso, como me queres chamar. Irrita-me quando me chamas «virtua».
_ Amigo não me leves a mal. É a brincar contigo. Vou dizer a minha mãe assim que tiver melhor para comer beterraba com fartura.
_ Não é preciso exagerar. Tudo tem limites.
_Houve da outra vez que o meu tio tinha aquele problema da próstata, melhorou muito com o que lhe aconselhaste. Lembras-te?
_ Claro que me lembro. Infelizmente esse mal é geral nos homens quando são mais velhos. Por isso é que o Napoleão comia muitas amêijoas, ostras e marisco em geral. Encheu-se ácido úrico, mas a nível de sexo…vai lá vai. É o que dizem.
_ Como se chamavam as plantas que lhe receitastes? Já não me lembro.
_ Ouve Lourenço, não me peças para escrever isso aqui, senão os leitores vão todos passar a chatear o autor, para dar receitas disto ou daquilo. Uma das plantas que te disse por acaso é um fruto e chama-se romã. Se pesquisarem verão que a romã é excelente para problemas da próstata. Há até uma planta que tem a capacidade de reduzir o seu tamanho, mas deixo isso para os médicos naturistas. Ter atenção que alguns alimentos são benéficos para umas coisas e prejudicais para outras.
_ Gosto mesmo de te ouvir falar de saúde. Eu tenho lá paciência para estudar essas coisas. Um dia quando me fartar de dar tantos peidos, eu peço-te uma receita para os meus gazes. Por enquanto não, que é a minha arma secreta para lidar com alguns «porcos».
_ Passas o dia a falar dessas porcarias.
_ Ricardo vais lá tu ao cemitério «sacar» a mala do dinheiro? Eu tenho que ir ao hospital ter com a minha mãe. Depois vou lá ter contigo.
_ Tudo bem, mas se alguém estiver ali a espiar não vou. Aquilo não é boa coisa.
_ Não tem nada que enganar. Junto ao muro do cemitério, no parque de estacionamento, logo a seguir ao contentor do lixo está um buraco no muro e uma pedra grande à frente. Meti a mala aí no buraco atrás da pedra. Se não encontrares telefona - me. Vai lá agora, para que ninguém a possa encontrar.
_ Ok…vou para lá agora mesmo. Ainda é cedo e está escuro. Vou aproveitar. Até logo Lourenço.
Ricardo meteu o carro na estrada que o levava a Estremoz. Passou pelos «mosqueteiros» e seguiu até virar para a estrada que levava ao cemitério novo da cidade de Évora. Será que a tal mala tinha assim tanto dinheiro? Mesmo que tivesse que iriam fazer com ele? O melhor seria entregar a mala á polícia, mas o Lourenço decerto que queria esse dinheiro para dividir pelos dois. Isto não me «cheirava» nada bem, mas também era como o Lourenço dizia, que com esta crise em Portugal, oportunidades destas não eram para se perder.

Autor: Manuel Maia