Das três oportunidades que o serviço de desemprego arranjou
tanto para mim como para o Lourenço, escolhemos a oportunidade de dar férias na
Câmara de Évora:
_ Finalmente vão começar a olhar para as pessoas que
trabalham no lixo de outra forma. Disse o Lourenço à saída do restaurante, onde
fomos almoçar e decidir as propostas.
_ Sim porque ir para Moçambique numa altura destas não dava
lá muito jeito. Pelo menos ficamos perto da nossa família_ disse eu.
_ Talvez possamos ir quando a tua cabeça deixar de pensar na
tua «ex»… além de que neste emprego me
posso «Gasear» à vontade que ninguém se vai zangar comigo. Achas que que se der
uns «gazes» neste emprego do lixo alguém se vai chatear?
_ Eu vou andar toda a noite de máscara. Imagino o cheiro que
vai ser.
_ Companheiro…é o que há. Se não gostarmos «basamos». Depois
nas folgas pomos perfumes low cost ( era aqui que entrava a publicidade, com
ofertas para os leitores). Máscara não vou precisar porque ando todo o ano com
uma nas «trombas».
No dia 02 de Março do ano 2013, Ricardo e o amigo Lourenço
apresentaram-se na Câmara de Évora ao chefe de turno, para iniciar o trabalho
de recolha de lixo.
_ Ainda bem que esta «cena» se recolhe de noite. Tenho vergonha
que os nossos amigos nos vejam_ disse eu ajudando a despejar o primeiro
contentor.
_ Ricardo hoje em dia qualquer profissão é boa. Com a crise
que existe, ter um emprego e ter saúde é um luxo. Lógico que preferia ter uma
profissão mais agradável que despejar lixo, mas tu vais ver que basta um tempo
e estamos mais habituados que os empregados que estão aqui há anos.
_ Boa…vamos transformar esta cidade na catedral do lixo e
«lixamos» tudo. Património da lixeira.
Entretanto a voz do motorista ouviu-se:
_ Olhem meus meninos. Mais contentores e menos conversa.
Lógico que o Lourenço não esteve com meias medidas e
«gazeou» o motorista. Este riu-se. Via-se que estava acostumado a receber
«presentes» daqueles.
Quando passámos pelo cemitério do Espinheiro fora da cidade,
descemos para recolher um contentor que estava perto do parque de
estacionamento no exterior. Olhei para o sítio onde tinha estado com Liliana e
aquela noite trágica, voltou à minha memória. Tinha- se passado cerca de dois
meses, mas é como se tivesse acabado de acontecer.
Lourenço reparou na minha cara e disse:
_ Caramba…parece que viste algum morto. Estás pálido amigo.
_ Foi aqui que falei com ela pela última vez. Foi quando ela
me contou do outro namorado novo que arranjou.
_ Aqui?! Fogo!…Estavam bem acompanhados.
_ O que tem de mais? Não veio cá nenhum morto fora chatear.
Além disso o parque é grande e pelo menos aqui estivemos em paz.
_ Ricardo eu não acho nada normal (enquanto metiam o
contentor no sítio). Se eu viesse aqui numa noite de trovada «borrava-me» todo.
_ Deixa-me adivinhar… se não te «borrasses» todo pelo menos
uns quantos gazes «deitavas»
_ Pois então isto é lá sítio para trazer uma namorada.Com
estes espíritos todos por aqui a rondar, ainda me «papavam» a mulher.
_ Tens cá com cada uma Lourenço.
_ Comigo aqui tu não podes ficar triste. Olha?!..olha
Ricardo! estás a ver o mesmo que eu!?
_ O quê?!. Respondi eu
_ Ali junto ao muro do cemitério. Não vês? Debaixo do contentor
do lixo? Parece uma mala.
_ Vamos que o motorista já está a chamar.
_ Não vamos nada. Vai lá tu distrair o velho do camião do
lixo, que eu vou ver o que é num instante.
_ Lourenço não vás…olha que pode ser perigoso. Pode ser
alguma bomba.
_ Como uma bomba ficava eu, se agora não fosse lá ver o que era.
Ricardo foi distrair o colega motorista do camião do lixo,
enquanto Lourenço foi a correr ver o que continha a mala. Ao fim de um bocado
juntou-se ao amigo. A sua expressão era de lhe ter saído a lotaria.
_ Então o que continha a mala?
_ Não vais acreditar. Nem te passa pela cabeça o que lá está
dentro.
_ Va «desembucha»…disse eu saltando para a parte de trás do
camião.
_ Dinheiro… cheio de dinheiro. Nunca vi tanto «picão» junto.
_ Fogo! Não me digas…e o que lhe fizeste?
_ Escondi a mala atrás de uma pedra dentro de um buraco que
há no muro do cemitério. Quando acabarmos o turno às seis, vimos ver melhor.
_ Estás louco? Aqui neste sítio só pode ser de tráfico de
droga, ou outra coisa muito ruim. Eu não sei se venho.
_Então agora estás armado em maricas?
_ Pronto. Eu venho contigo ver o mistério da mala do
cemitério. Olha se tem dinheiro ao menos que seja muito.
_ É assim mesmo amigo. Pode ser a nossa oportunidade de
sermos ricos.
_ Ou de ir parar á cadeia, que me parece ser o mais certo.
Antes de acabarmos o turno, o Lourenço recebeu uma chamada
de urgência. Ouvi ele falar ao telefone e quando desligou a chamada disse:
_ Fonix… A minha mãe foi internada com um problema grave de
anemia. Está com soro. Tem quistos nos ovários e um mioma. Tu que és «virtua»
que me dizes disto?
_ Problema de alimentação. As mulheres passam anos com falta
de ferro no sangue e não querem saber de modificar o problema. Quando ela regressar
a casa compra no «pinga» «acuçar» ( por
causa da publicidade) beterrabas cozidas e colocas nas sopas e nas saladas.
Verás que nunca mais tem falta de ferro. Inclusive pode diminuir os quistos e o
mioma.
_ Oh…«virtua» tu sabes muito de dessas «cenas» de produtos
naturais. Tiraste algum curso?
_ Achas? Limito- me a ir á internet e vejo os benefícios das
plantas e também os seus efeitos secundários, porque muitas plantas podem ser
tóxicas. Não sou nenhum virtuoso, como me queres chamar. Irrita-me quando me
chamas «virtua».
_ Amigo não me leves a mal. É a brincar contigo. Vou dizer a
minha mãe assim que tiver melhor para comer beterraba com fartura.
_ Não é preciso exagerar. Tudo tem limites.
_Houve da outra vez que o meu tio tinha aquele problema da
próstata, melhorou muito com o que lhe aconselhaste. Lembras-te?
_ Claro que me lembro. Infelizmente esse mal é geral nos
homens quando são mais velhos. Por isso é que o Napoleão comia muitas amêijoas,
ostras e marisco em geral. Encheu-se ácido úrico, mas a nível de sexo…vai lá
vai. É o que dizem.
_ Como se chamavam as plantas que lhe receitastes? Já não me
lembro.
_ Ouve Lourenço, não me peças para escrever isso aqui, senão
os leitores vão todos passar a chatear o autor, para dar receitas disto ou daquilo.
Uma das plantas que te disse por acaso é um fruto e chama-se romã. Se
pesquisarem verão que a romã é excelente para problemas da próstata. Há até uma
planta que tem a capacidade de reduzir o seu tamanho, mas deixo isso para os
médicos naturistas. Ter atenção que alguns alimentos são benéficos para umas
coisas e prejudicais para outras.
_ Gosto mesmo de te ouvir falar de saúde. Eu tenho lá
paciência para estudar essas coisas. Um dia quando me fartar de dar tantos
peidos, eu peço-te uma receita para os meus gazes. Por enquanto não, que é a
minha arma secreta para lidar com alguns «porcos».
_ Passas o dia a falar dessas porcarias.
_ Ricardo vais lá tu ao cemitério «sacar» a mala do
dinheiro? Eu tenho que ir ao hospital ter com a minha mãe. Depois vou lá ter
contigo.
_ Tudo bem, mas se alguém estiver ali a espiar não vou.
Aquilo não é boa coisa.
_ Não tem nada que enganar. Junto ao muro do cemitério, no
parque de estacionamento, logo a seguir ao contentor do lixo está um buraco no
muro e uma pedra grande à frente. Meti a mala aí no buraco atrás da pedra. Se
não encontrares telefona - me. Vai lá agora, para que ninguém a possa
encontrar.
_ Ok…vou para lá agora mesmo. Ainda é cedo e está escuro.
Vou aproveitar. Até logo Lourenço.
Ricardo meteu o carro na estrada que o levava a Estremoz.
Passou pelos «mosqueteiros» e seguiu até virar para a estrada que levava ao
cemitério novo da cidade de Évora. Será que a tal mala tinha assim tanto
dinheiro? Mesmo que tivesse que iriam fazer com ele? O melhor seria entregar a
mala á polícia, mas o Lourenço decerto que queria esse dinheiro para dividir
pelos dois. Isto não me «cheirava» nada bem, mas também era como o Lourenço
dizia, que com esta crise em Portugal, oportunidades destas não eram para se
perder.
Autor: Manuel Maia

