Procurava
desesperadamente um sítio onde me encontrar com ela. Rodei o meu carro pelas
estradas à volta da cidade e todos eles, me pareciam impossíveis para esse
encontro que eu suspeitava que pudesse ser o último.
Quando finalmente
encontrei o local, mandei-lhe uma mensagem a confirmar o dito encontro:
“ Afinal
vens ter comigo? Já encontrei um sítio.”
Ao fim de
apenas um minuto já tinha a resposta;
“Onde estás?
Já estou despachada.”
“ Estou
junto ao cemitério novo. Conheces?”
“
Cemitério?! Porquê esse sítio?”
“Foi o único
sítio que encontrei onde não passa ninguém. Não queres falar comigo em sossego?
Então aqui
há muita «gente», mas estão todos calados. Além disso, já me
conheces há muito tempo e não vais pensar que te poderia fazer algum mal. Ou
não confias mais em mim?”.
“Ok… vou já
para aí então”.
Fiquei à sua
espera dentro do carro, ouvindo música baixinha. Qual seria o motivo da
conversa que Liliana tinha para me fazer? Fazia «séculos» que não me dizia
nada. Alguma coisa importante seria_ pensava eu enquanto observava aquela
terrível noite com uma chuva irritante numa noite de um Janeiro frio. De facto,
o sítio era um pouco assustador. O parque do cemitério estava deserto, sem
ninguém que se atrevesse ali a estacionar. Era natural que as pessoas tivessem medo
de um local, em que vão ter de «viver» para sempre algum dia. Eu próprio estava
um pouco assustado, com a chuva a bater no vidro do meu carro. Ao longe, os
relâmpagos iluminavam a noite tornando o sítio algo sinistro.
Ao fim de
uns dez minutos um carro apareceu na curva e parou ao lado do meu. Era ela. A
mulher que eu mais amava na vida, a par da minha mãe. Saí do carro e entrei no
dela sentando-me ao seu lado.
Pressentindo
que algo ia mal, não a beijei com era hábito fazer:
_ Não te
importas que eu não te beije? Já fumei tantos cigarros que a minha boca está um
cinzeiro…disse meio nervoso com a sua presença.
Ela agarrou
as minhas mãos. Um sinal conhecido de que algo importante estava para me dizer.
Perguntei-lhe
então:
_ Que assunto tão importante te trás a mim? Faz tanto tempo que não estamos juntos que já pensava que não me querias ver mais. Nem telefonemas nem mensagens. Aconteceu alguma coisa? Só pode. Nunca mais disseste nada. Já não me amas?
_ Claro que amo…
mas de facto, aconteceu algo que tenho de te contar_ disse ela olhando para
mim.
_ Algo que
decerto nos vai afastar para sempre_ disse eu muito sério e triste.
De repente
sem que eu esperasse, dos seus olhos verdes brotaram lágrimas seguidas como se
fossem as gotas de chuva que escorriam pelo vidro do carro.
_ Estou grávida_ disse ela sem parar de chorar.
As suas mãos
apertavam as minhas com tanta força que mais parecia querer levá-las com ela
para não sei onde.
_ Grávida?!
Mas nós não estamos juntos desde há mais de seis meses. Meu esse filho não é de certeza.
_ Sim… claro
que não é teu. Tenho outra pessoa que conheci e aconteceu…desculpa Ricardo…sei
que
não tenho desculpa…mas apaixonei-me por ele.
_ Por ele
quem? Então tu não és a minha namorada?_ perguntei eu soltando bruscamente as
minhas mãos das delas. Estou a ver agora,as tuas imensas desculpas para não
saíres comigo. Saías afinal com outro- Deve ser giro agora os meus amigos
dizerem quando me virem:
_ Olha lá
vai mais um «gajo» que não cabe nas portas, pelos cornos que tem na cabeça… e
dizes tu que me amas. Grande amor sim senhor.
_ Aconteceu
Ricardo. Não tenho a culpa. Apaixonei-me sem querer.
_
Apaixonaste- te porque lhe deste conversa. Deduzo que desse modo, já não me
amas e te queres separar de mim. Só não consigo entender, as promessas que tu
fizeste aos dizeres que eu seria o teu amor para toda a vida e que nunca te ias
separar de mim.
_ Mas eu
amo-te Ricardo. Amo sim… e nunca vou deixar de te amar.
_ Amas-me a
mim e «curtes» com outros.
_ Com outros
não. Aconteceu isto com este… porque me apaixonei.
_Deves
pensar que eu sou idiota a ponto de aceitar isso e um filho teu e de outro. Não
te quero ouvir mais. Tu sempre disseste que me contavas tudo o que te ia
acontecendo e mentiste. Eu nunca te menti em nada. Não vou ouvir mais nada da
tua boca. Vai-te embora e nunca mais voltes a dizer-me nada.
_Por favor,
compreende. Não te quero perder.
_ Tu não
estás bem. Se agora tens outro é porque o amas certo? Ainda por cima com um filho
seu quem está aqui a mais sou eu.
_ Mas eu não
te quero perder Ricardo.
_Não digas
que me amas, por favor. Se me amasses não me fazias nada disto. Ou não tenho
razão? Já basta ter de andar escondido. Só porque estive detido? Tu é que me
pediste para andar assim. Para não me mostrar aos teus pais, não me mostrar no
teu emprego e os teus amigos não me podem conhecer. Eu naõ matei ningúem
Liliana. Não roubei e também não prejudiquei ninguém. Fui detido porque fui
apanhado na estrada com alcool e tiraram-me a carta. Não estive na cadeia.
Estive em casa com pulseira electrónica. Porque tenho de ser desprezado assim?
Voltei a beber sim, mas tu sabes bem o motivo. Ou não sabes?
_ Sim tens
razão. Mas sabes como são as pessoas nesta cidade. Se me vêm contigo vão logo
associar que
eu sou como tu e que ando com uma pessoa que foi detida.
_ Mas qual é
o problema? Foram seis meses Liliana. Se tu realmente me amasses de verdade, tu
eras a
própria a tentar que as pessoas me aceitassem outra vez. Não me tinhas
desprezado. Foste em vez disso, uma egoista que só pensou em ti. Isso não era
desculpa para me substituires à pressa por outro. Mas pronto, está feito está
feito. No fundo, agora queres sair da minha vida de forma elegante. Uma «cena»
que pareça bem. Tudo bem. Não temos mais nada a dizer.
Sai do carro
deixando Liliana em lágrimas e entrei à pressa no meu.
Saí «disparado»
em direção à estrada que me levava ao centro da cidade. Dos meus olhos saltavam
lágrimas perdidas, que me caíam sem rumo. Estava consolidado o meu pressentimento
de que essa noite ficaria marcada na minha vida. Como era possível dizer que me
amava tanto e ter outro? Para mim isto só acontecia nos filmes. Aliás nem aí
acontecia. Ou se ama ou não. As coisas não acontecem por acaso. Tem de haver
uma razão. A razão dela não poderia ser um descuido. Ela tinha mentido. Tinha
tempo para estar com o namorado novo e a mim, nem quando estive detido em casa
ela apareceu. Não telefonou. Nada.
Não dormi
nessa noite claro. Ouvi a chuva a cair, os cães a ladrarem e os pais a
ressonarem no quarto ao lado. Verifiquei sem conta certa o meu telemóvel.
Nenhuma mensagem ou outro sinal dela. Naturalmente estaria com o seu novo companheiro
que eu desconhecia. Lá está…as coisas não acontecem só aos outros. Tantas
histórias de gente conhecida que se tinham separado e quando isso nos acontece,
nós não conseguimos entender a dor dos outros. Era a minha vez de conhecer o
sofrimento.
Autor: Manuel Maia
Autor: Manuel Maia

