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Histórias de pessoas para pessoas
terça-feira, 14 de maio de 2013

O Ser que veio do Além-Parte 1

terça-feira, maio 14, 2013


Procurava desesperadamente um sítio onde me encontrar com ela. Rodei o meu carro pelas estradas à volta da cidade e todos eles, me pareciam impossíveis para esse encontro que eu suspeitava que pudesse ser o último.
Quando finalmente encontrei o local, mandei-lhe uma mensagem a confirmar o dito encontro:

“ Afinal vens ter comigo? Já encontrei um sítio.”
Ao fim de apenas um minuto já tinha a resposta;

“Onde estás? Já estou despachada.”

“ Estou junto ao cemitério novo. Conheces?”

“ Cemitério?! Porquê esse sítio?”

“Foi o único sítio que encontrei onde não passa ninguém. Não queres falar comigo em sossego? Então aqui 
há muita «gente», mas estão todos calados. Além disso, já me conheces há muito tempo e não vais pensar que te poderia fazer algum mal. Ou não confias mais em mim?”.

“Ok… vou já para aí então”.

Fiquei à sua espera dentro do carro, ouvindo música baixinha. Qual seria o motivo da conversa que Liliana tinha para me fazer? Fazia «séculos» que não me dizia nada. Alguma coisa importante seria_ pensava eu enquanto observava aquela terrível noite com uma chuva irritante numa noite de um Janeiro frio. De facto, o sítio era um pouco assustador. O parque do cemitério estava deserto, sem ninguém que se atrevesse ali a estacionar. Era natural que as pessoas tivessem medo de um local, em que vão ter de «viver» para sempre algum dia. Eu próprio estava um pouco assustado, com a chuva a bater no vidro do meu carro. Ao longe, os relâmpagos iluminavam a noite tornando o sítio algo sinistro.

Ao fim de uns dez minutos um carro apareceu na curva e parou ao lado do meu. Era ela. A mulher que eu mais amava na vida, a par da minha mãe. Saí do carro e entrei no dela sentando-me ao seu lado.
Pressentindo que algo ia mal, não a beijei com era hábito fazer:

_ Não te importas que eu não te beije? Já fumei tantos cigarros que a minha boca está um cinzeiro…disse meio nervoso com a sua presença.
Ela agarrou as minhas mãos. Um sinal conhecido de que algo importante estava para me dizer.
Perguntei-lhe então:

_ Que assunto tão importante te trás a mim? Faz tanto tempo que não estamos juntos que já pensava que não me querias ver mais. Nem telefonemas nem mensagens. Aconteceu alguma coisa? Só pode. Nunca mais disseste nada. Já não me amas?

_ Claro que amo… mas de facto, aconteceu algo que tenho de te contar_ disse ela olhando para mim.

_ Algo que decerto nos vai afastar para sempre_ disse eu muito sério e triste.
De repente sem que eu esperasse, dos seus olhos verdes brotaram lágrimas seguidas como se fossem as gotas de chuva que escorriam pelo vidro do carro.

_ Estou grávida_ disse ela sem parar de chorar.

As suas mãos apertavam as minhas com tanta força que mais parecia querer levá-las com ela para não sei onde.

_ Grávida?! Mas nós não estamos juntos desde há mais de seis meses. Meu  esse filho não é de certeza.

_ Sim… claro que não é teu. Tenho outra pessoa que conheci e aconteceu…desculpa Ricardo…sei que 
não tenho desculpa…mas apaixonei-me por ele.

_ Por ele quem? Então tu não és a minha namorada?_ perguntei eu soltando bruscamente as minhas mãos das delas. Estou a ver agora,as tuas imensas desculpas para não saíres comigo. Saías afinal com outro- Deve ser giro agora os meus amigos dizerem quando me virem:

_ Olha lá vai mais um «gajo» que não cabe nas portas, pelos cornos que tem na cabeça… e dizes tu que me amas. Grande amor sim senhor.
_ Aconteceu Ricardo. Não tenho a culpa. Apaixonei-me sem querer.

_ Apaixonaste- te porque lhe deste conversa. Deduzo que desse modo, já não me amas e te queres separar de mim. Só não consigo entender, as promessas que tu fizeste aos dizeres que eu seria o teu amor para toda a vida e que nunca te ias separar de mim.

_ Mas eu amo-te Ricardo. Amo sim… e nunca vou deixar de te amar.

_ Amas-me a mim e «curtes» com outros.

_ Com outros não. Aconteceu isto com este… porque me apaixonei.

_Deves pensar que eu sou idiota a ponto de aceitar isso e um filho teu e de outro. Não te quero ouvir mais. Tu sempre disseste que me contavas tudo o que te ia acontecendo e mentiste. Eu nunca te menti em nada. Não vou ouvir mais nada da tua boca. Vai-te embora e nunca mais voltes a dizer-me nada.
_Por favor, compreende. Não te quero perder.

_ Tu não estás bem. Se agora tens outro é porque o amas certo? Ainda por cima com um filho seu quem está aqui a mais sou eu.

_ Mas eu não te quero perder Ricardo.

_Não digas que me amas, por favor. Se me amasses não me fazias nada disto. Ou não tenho razão? Já basta ter de andar escondido. Só porque estive detido? Tu é que me pediste para andar assim. Para não me mostrar aos teus pais, não me mostrar no teu emprego e os teus amigos não me podem conhecer. Eu naõ matei ningúem Liliana. Não roubei e também não prejudiquei ninguém. Fui detido porque fui apanhado na estrada com alcool e tiraram-me a carta. Não estive na cadeia. Estive em casa com pulseira electrónica. Porque tenho de ser desprezado assim? Voltei a beber sim, mas tu sabes bem o motivo. Ou não sabes?

_ Sim tens razão. Mas sabes como são as pessoas nesta cidade. Se me vêm contigo vão logo associar que 
eu sou como tu e que ando com uma pessoa que foi detida.

_ Mas qual é o problema? Foram seis meses Liliana. Se tu realmente me amasses de verdade, tu eras a 
própria a tentar que as pessoas me aceitassem outra vez. Não me tinhas desprezado. Foste em vez disso, uma egoista que só pensou em ti. Isso não era desculpa para me substituires à pressa por outro. Mas pronto, está feito está feito. No fundo, agora queres sair da minha vida de forma elegante. Uma «cena» que pareça bem. Tudo bem. Não temos mais nada a dizer.
Sai do carro deixando Liliana em lágrimas e entrei à pressa no meu.

Saí «disparado» em direção à estrada que me levava ao centro da cidade. Dos meus olhos saltavam lágrimas perdidas, que me caíam sem rumo. Estava consolidado o meu pressentimento de que essa noite ficaria marcada na minha vida. Como era possível dizer que me amava tanto e ter outro? Para mim isto só acontecia nos filmes. Aliás nem aí acontecia. Ou se ama ou não. As coisas não acontecem por acaso. Tem de haver uma razão. A razão dela não poderia ser um descuido. Ela tinha mentido. Tinha tempo para estar com o namorado novo e a mim, nem quando estive detido em casa ela apareceu. Não telefonou. Nada.
Não dormi nessa noite claro. Ouvi a chuva a cair, os cães a ladrarem e os pais a ressonarem no quarto ao lado. Verifiquei sem conta certa o meu telemóvel. Nenhuma mensagem ou outro sinal dela. Naturalmente estaria com o seu novo companheiro que eu desconhecia. Lá está…as coisas não acontecem só aos outros. Tantas histórias de gente conhecida que se tinham separado e quando isso nos acontece, nós não conseguimos entender a dor dos outros. Era a minha vez de conhecer o sofrimento.

Autor: Manuel Maia


Cemitério do Espinheiro-Évora